Cantinho da Flor

Para Quem Quer Qualidade de Vida

Colcha de retalhos: As belezas da vida momento a momento

Portal

Janelas

Portais para infinitos universos

Por Flor Atirupa

 

 

 

As janelas inspiram inúmeras possibilidades… Infinitas belezas espontâneas de quem está dentro ou fora delas. Eu costumo dizer que elas são portais para nosso universo interior, mas ainda elas podem ser portais para outros infinitos universos.

Um dos mestres da nossa literatura escreveu a estória de dois velhos num quarto de asilo. Um deles estava de cama e não podia se levantar; o outro, que conseguia ir até a janela, descrevia o que passava abaixo dela, casais de namorados, flores que desabrochavam, belezas do dia-a-dia, encantando seu dia e de seu colega de quarto. O vigilante do cotidiano morrera e o outro velho deu um jeito de ir até a janela e ver aquelas belezas com seus próprios olhos… E o que ele encontra? Um muro sujo com lixos espalhados pelo chão. Aquela janela era um portal das belezas que viviam dentro do velho contador de estórias…

Se pela minha janela passar um catador de lixo numa carroça eu posso ver um homem catando seu sustento e de sua família, inconscientemente ajudando a reciclar o mundo. Outra pessoa pode achar que é um ladrão disfarçado de catador perambulando pela rua esperando a bobeira de algum morador para agir. Pelo menos foi assim que o vigilante da rua descreveu os carroceiros do meu bairro.

Caetano, na música “trem das cores”diz “…. as casas tão verde- rosa que vão passando a nos ver passar/os dois lados da janela…”. Janelas sempre têm dois lados… Na verdade somos nós que sempre estamos do lado de dentro e do lado de fora. Agora mesmo estou ao lado da janela do meu quarto. Olhando de dentro o namorado da vizinha que chega e os dois estão trocando carinhos de chegada, de saudade em frente ao seu portão que de lá estou de fora. Para eles o que estou fazendo?

Rubem Alves no texto “Beleza da Cidade” cita Saint-Exupéry quando o Pequeno Príncipe voa sozinho na noite escura , quando todos os contornos da terra haviam desaparecido , ele via luzes na escuridão. Rubem Alves disse o que ele via eram casas , pessoas assentadas à beira do fogo, esquecendo-se, comendo, bebendo, conversando, amando. Aquelas pequenas luzes faziam com que a escuridão ficasse macia, ninho acolhedor. E eu digo o que ele via eram frestas de janelas, portais para o cotidiano, enfim o que eu chamo de belezas espontâneas.

Do lado de dentro sempre fiz questão de escrever ao lado de uma janela, já tive várias… Todas elas me levaram para um espaço interior de linhas e entrelinhas; e pintar não é diferente… Ao lado de uma janela vem à tona realidades, cores, vida!!!! Já ganhei de presente uma janela gigante… Mudei-me para casa dessa janela no outro dia, foi o melhor presente da minha vida: pintei e escrevi, viajei… Fiquei bem mais perto de Deus.

Do lado de fora das janelas sempre fiquei encantada imaginando as conversas de quem estava dentro, os movimentos despretensiosos dos seres de lá, ou mesmo os objetos, me perguntando por que aquele quadro? Por que aquela cor de parede? Por que a cortina?

Janelas podem ser clássicas, neoclássicas, coloridas, envelhecidas do tempo, abertas, fechadas, cansadas da exposição, viçosas por mais uma estória a sua frente como na música “A Banda”de Chico Buarque “a moça feia se debruçou na janela pensando que a banda tocava pra ela”.

Eu pinto janelas! Escrevo janelas! Amo em janelas… Sonho… Resolvo minha vida ao olhar pro céu do meu universo interior. Encontro minha mais pura beleza nessa viajem misteriosa.

Já ouviram falar na estória da esposa que todos os dias reclamava ao seu marido que os lençóis e roupas do varal da vizinha estavam sempre sujos até que ele pacientemente resolveu alertá-la de limpar os vidros da janela que levava ao quintal do vizinho, pois o que estava sujo era isso?

O que vemos através das janelas somos nós, nosso eu, nossa sujeira, nossa beleza, nossas verdades. Aproveitem suas janelas, elas dirão sempre o que estar dentro mesmo estando dos dois lados.

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2 Comentários»

  joão wrote @

cada ser humano tem sua ou suas janelas e através dela enxergam a si. analogia perfeita né!
a colcha de retalhos se fez valer.

  Larissa Marques wrote @

Acredito que: Aqueles que conseguem observar a beleza nas coisas simples, conseguem na verdade enxergar o todo,porque conseguem vislumbrar o que nem todos conseguem ver. E muitas vezes o sentido do que buscamos na vida não esta no que é complexo. Fiquei pensando na historia do velhinho do asilo(citada no texto) e penso que concordo cada vez mais com Saint-Exupéry “O essencial é invisível aos olhos”. precisamos enxergar a beleza naquilo que os nossos olhos não vêem, e o melhor! fazer com que as pessoas que convivem conosco também acredite que tudo depende da forma como você observa a sua janela…. Parabéns pelo artigo,gostei muito da analogia ,uma bela forma de iniciar o site que Deus abençõe o sucesso do seu trabalho…um abraço.


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