Cantinho da Flor

Para Quem Quer Qualidade de Vida

Coisa boa

Lúdico

Fantasia, imaginação e muito mais

Por Tullio Andrade

Eu sempre quis fazer isso! Todo mundo já falou essa frase pelo menos uma vez na vida. Mas nem todos deram a devida atenção a ela. Se você tem vontade de toma banho de chuva ou de brincar de amarelinha no meio da principal avenida da sua cidade, por que não faz?! Os princípios de conduta social algumas vezes acabam por castrar uma das manifestações mais importantes e essenciais ao desenvolvimento humano: a ludicidade.

Nelson C. Marcellino, Doutor em Educação e Livre docente em Educação Física e Estudos do Lazer, em entrevista especial para a Beleza Pura!, ressaltou que “o lúdico é um direito do ser humano, simplesmente porque contribui para sua humanização, traz prazer, traz felicidade e contribui para sua cidadania.”. Mas no dia-a-dia, geralmente negligenciamos esse direito. A vergonha de ser ridículo, o medo de ser criticado, a preocupação excessiva com o trabalho e tantos outros motivos que usamos para justificar nossa falta de ludicidade acabam explodindo em estresse, mau humor, brigas e até mesmo violência.

Mais do que diversão, as manifestações lúdicas constituem a base da cultura humana segundo os estudiosos Johan Huizinga (professor e historiador neerlandês, autor do livro “Homo Ludens”) e Donald W. Winnicott (psicanalista inglês autor do livro “O Brincar e a Realidade”). Para eles uma criança que não brinca, será o adulto não participativo e não criativo culturalmente. E o homem é, por natureza, um ser cultural. Dessa forma, nos faltando o lúdico, nos faltará nossa característica maior de humanidade: a capacidade de fazer cultura.

Sendo assim, por que temos tanta dificuldade em vivenciar o lúdico? Sarah Andrade, fotografada em um de seus momentos lúdicos, não tem medo de ser feliz. E você? O que você sempre quis fazer para ser feliz? Mergulhar de roupa numa piscina? Correr pelado no meio da floresta amazônica? Comer um quilo de chocolate de uma só vez? Bom, eu fiz essas cosias… e recomendo. Durante a atividade lúdica podemos experimentar uma das poucas oportunidades de sermos plenos, pois acessamos os nossos sentimentos mais profundos e sinceros.

Cipriano C. Luckesi, Doutor em Educação e vice-coordenador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Ludicidade da UFBA, afirma que durante as atividades lúdicas “ o ser humano, criança, adolescente ou adulto, não pensa, nem age, nem sente; ele vivencia, ao mesmo tempo, sentir, pensar e agir.”. E complementa: “Enquanto estamos participando verdadeiramente de uma atividade lúdica, não há lugar, na nossa experiência, para qualquer outra coisa além dessa própria atividade. Não há divisão. Estamos inteiros, plenos, flexíveis, alegres, saudáveis”.

Muita gente costuma dizer que o lúdico é a fuga da realidade. Mas particularmente prefiro pensar em vivência da sua verdadeira realidade, sem se preocupar com preconceitos, pudores, medos, vergonhas ou qualquer outro artifício coercitivo criado pelo homem para moldar sua conduta social. Vivenciar o lúdico é estar feliz. Então, permita-me, caro leitor, um instante de ludicidade para fugir das convenções jornalísticas sacramentadas nos manuais e relatar uma experiência pessoal que julgo ser pertinente para exemplificar o que acabo de afirmar. Certa vez na praça de alimentação de um shopping da cidade, estava eu ouvindo um cantor entoar canções antigas e excessivamente bregas. Embora eu gostasse da maioria delas não me permiti o ridículo de ser visto cantando nenhuma. Mas do outro lado, observei uma jovem senhora de pouco mais de 40 anos, com um vestido vermelho berrante e colares escandalosamente chamativos, cantando e dançando sozinha, sem se preocupara com as risadas e comentários de reprovação. Depois de uns poucos minutos me perguntei: Quem de nós é feliz nessa história? Eu, aqui com esse chopp quente louco de vontade de tirar aquela senhora para dançar; ou ela, que está se permitindo curtir sua alegria ao máximo?

Depois disso comecei a entender um pouco mais a importância da ludicidade. Mas afinal de contas…

O que o lúdico?

Sarah sem medo de ser feliz!

Nas palavras de Marcellino “o lúdico é um componente da cultura, entendida em seu sentido amplo, como modos de ser, sentir, agir, pensar, enquanto processo e produto. O lúdico compõe a cultura, e varia com o tempo e o espaço. É caracterizado pela alegria, pela espontaneidade, pela liberdade, e pela ‘gratuidade’, uma vez que não se busca outra recompensa além do prazer da sua Vivência”. Nas minhas palavras, o lúdico é dançar como aquela jovem senhora no meio de um shopping lotado. É simplesmente o prazer de dizer “eu sempre quis fazer isso!”.

No fundo, todos temos uma noção do que é ludicidade, mas nem sempre sabemos como ser lúdicos. Luckesi conta que certa vez, coordenando um grupo de trabalho e atividades lúdicas, uma das participantes disse lamentar não poder mais brincar com suas bonecas, como quando era criança… Mas, logo em seguida um outro participante lembrou-lhe que agora, aos trinta anos, ela podia brincar de outras coisas, como tomar decisões sobre sua vida, fazer sexo, ir às festas sozinha, viajar, trabalhar, ganhar seu dinheiro e gastá-lo como quisesse etc. Para Luckesi, “Há ludicidade nas atividades da criança e do adolescente e do adulto. São experiências lúdicas, mas tendo por base atos diferentes. O que permanece é o estado interno de alegria, de realização, de experiência plena. O ser humano se desenvolve e, com o desenvolvimento, os objetos de ludicidade vão se modificando, o que não quer dizer que um adulto não possa nem deva, um dia, experimentar novamente brinquedos de sua infância e, isso, com ludicidade.”

No entanto, é preciso vivenciar a ludicidade de maneira liberta; pois é comum as pessoas pensarem seus momentos de lazer como mais um dos compromissos listados em suas agendas.

A vivência do lazer lúdico não poder assumir esse status de “obrigação de ter lazer”; porque assim perdem sua natureza lúdica, não podendo ser vivida em sua plenitude. Em outro viés dessa discussão, normalmente temos o impulso de associar a diversão e a ludicidade a determinados lugares como o cinema, a praia, a festa etc. Mas em relação a isso Marcellino ressalta que “ não é necessário um tempo/espaço específico para o lúdico. Ele pode se manifestar no trabalho, na vida familiar, na vida religiosa, etc. Então é preciso sair do conformismo com que a maioria das pessoas desenvolve o seu lazer, simplesmente consumindo mercadorias, passando para níveis críticos e criativos da sua vivência.”.

No final das contas, acredito que não há como sair para “comprar” o lúdico no shopping ou na praia e em festas, nem tampouco como “ensinar” alguém a ser lúdico. A ludicidade está nos sentimentos mais profundos e sinceros de cada um. E mergulhar nesse íntimo é se conhecer um pouco mais; é proporcionar a si mesmo um pouco mais de felicidade. Então, não tenho como terminar essa matéria sem refazer aquela mesma pergunta: O que você sempre quis fazer?!

——————————————————————————————————

Confira a entrevista no Papo Beleza Pura! com Nelson Carvalho Marcellino, Doutor em Educação e Livre docente em Educação Física e Estudos do Lazer sobre a importancia de vivenciar o lazer em sua plenitude.

Anúncios

2 Comentários»

  Micheline wrote @

Muito legal! Lí 3 matérias até agora mas não posso prosseguir sem antes comentar esta. Ela me dá respaudo pra dua fotos que pus em meu album no orkut onde numa tinham 3 primos, crianças, brincando no chão, e na próxima 3 primas: eu de 34 anos uma de 57 e outra de 64 brincando também só que no computador no msn e na legenda das fotos tem apenas assim: PRIMOS BRINCANDO e na próxima foto PRIMAS BRINCANDO.
Por isso concordo com tudo escrito aqui ,e reforço que precisamos ter coragem pra isso sem ficar se envergonhando e se importando pros comentários dos outros.Um abraço apertado ,suspiro dobrado pra todos vcs.

  Lorena Medeiros wrote @

Adorei…. o pior é que as pessoas não se tocam ou desconhecem isso… muitas vezes pensam até que é errado, proibido ou ridículo…. Precisa ser difundido. As experiências lúdicas são essênciais para a nossa plenitude.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: