Cantinho da Flor

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Papo Beleza Pura!


“A obrigação de estarmos sempre ocupados com alguma coisa considerada útil e produtiva não é “intrínseca”, ela é aprendida culturalmente e não pode ser naturalizada”

Por Tullio Andrade

Mais conhecida pela assinatura Werneck, Christianne L.G., usada em seus primeiros trabalhos acadêmicos, a Coordenadora do único curso no Brasil de Mestrado Acadêmico em Lazer (UFMG), Christianne Luce Gomes, convida os leitores da Beleza Pura! a refletirem com ela, de forma crítica e consciente, sobre como estamos encarando o nosso “Trabalho”. Para ela, o trabalho não deve ser algo alienante nem tampouco estar envolto em exploração e injustiças, sendo necessárias “mudanças sociais profundas” para mudar o atual modelo produtivo.

Christianne Luce é autora de sete livros e vários artigos científicos sobre o lazer. Ela é graduada em Educação Física, especializada em Lazer, possui mestrado em Educação Física e doutorado em Educação. É professora Adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais e membro titular do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) e da Câmara de Pós-Graduação na Reitoria da universidade. Além disso, coordena o Curso de Mestrado Acadêmico em Lazer da UFMG e o Centro de Estudos de Lazer e Recreação (CELAR).

BELEZA PURA!: O Jornalista do The Guardian, Tom Hodgkinson, defende em seus livros que as pessoas devem trabalhar menos e ter mais tempo livre para se dedicar a outros aspectos da sua vida. Ele, por exemplo, largou uma vida atribulada em Londres para morar numa chácara e trabalha hoje apenas 3 horas por dia. Para ele a “busca por segurança e dinheiro leva ao estresse e ao tédio”. O que a Sra. acha desse modelo de vida?

Christianne Luce: É certo que alguns têm o privilégio de escolher, por exemplo, onde e como morar; onde e o quê estudar; onde, quando e até mesmo quanto trabalhar. Alguns, porque essa não é a realidade da maioria, principalmente em um país como o Brasil, marcado por desigualdades e exclusões de toda ordem.
Em nosso contexto, muitos enfrentam jornadas de trabalho desumanas em decorrência da luta pela própria sobrevivência. Não podem escolher se vão trabalhar 3, 8, 10 ou até 14 horas por dia porque impera a lei da necessidade, e não da liberdade. O Brasil é um dos países campeões em termos de desigualdade social. Mudar essa situação de injustiça implica promover mudanças sociais profundas. Significa alterar o status quo porque ele só é conveniente para as camadas mais abastadas da população. Mas, quem se interessa por essas mudanças não tem tempo, está muito ocupado… trabalhando!

BELEZA PURA!: Muitas vezes temos a impressão de que as jornadas de trabalho prolongadas são mais comuns entre a população que executa tarefas menos privilegiadas. Como a Sra. vê o excesso de trabalho nas diversas esferas de trabalho?

Christianne Luce: Trabalhar demais não é uma situação que compromete apenas os segmentos mais pobres. Trabalhadores pertencentes às classes médias, dependendo do ramo de atuação, trabalham por resultado e assim precisam alcançar metas dificílimas para manter o emprego, o que pode significar prolongamento da jornada, diminuição do convívio social com os amigos e a família, poucas oportunidades para se vivenciar o lazer. Outros, ainda, empenhados em obter segurança, melhorar o padrão de vida ou realizar “sonhos de consumo”, têm renda proporcional à quantidade de trabalho realizada. E até mesmo os profissionais das classes mais altas, como executivos, se vêem presos a essa roda viva do trabalho frenético, em decorrência da lógica da produtividade tão bem incorporada por todos nós. Claro que tudo isso tem conseqüências drásticas para o ser humano e para a sociedade, daí a importância de pararmos para refletir sobre essas questões, suas causas e conseqüências.

BELEZA PURA!: Culturalmente estamos propensos a uma idéia de estar em constante “produção”. Como a Sra. analisa essa necessidade intrínseca de “produzir” e como podemos tomar consciência da necessidade de ter momentos de descanso?

Christianne Luce: A obrigação de estarmos sempre ocupados com alguma coisa considerada útil e produtiva não é “intrínseca”, ela é aprendida culturalmente e não pode ser naturalizada. Vivemos a era do fluxo de informações, da valorização da imagem e da virtualidade, do efêmero e do superficial. Contemplar, conhecer, refletir e compreender requerem, entre outros elementos, disponibilidade, consistência, profundidade e criticidade. Tomamos consciência disso quando aprendemos a escutar o nosso corpo, a compreender emoções e a enfrentar conflitos pessoais, sociais, políticos. Isso implica uma boa dose de conhecimento sobre si, sobre o outro e também sobre o mundo.

BELEZA PURA!: Nos anais do IX Seminário Lazer em Debate, a Sra faz referência a Reale (1980) para fazer uma crítica ao atual modo como as pessoas encaram o descanso, visto como uma necessidade para “recarregar” as forças para poder trabalhar mais depois. Essa concepção pode ser definida como uma “alienação do trabalho”? E quais os reflexos disso para a vida dos trabalhadores?

Christianne Luce: Alienação significa separação ou perda sofrida, pelo indivíduo, de uma parte do seu ser, de sua atividade e de sua construção humana. É um empecilho para a formação crítica e para o fortalecimento dos vínculos humanos, provocando um isolamento social do indivíduo.
Assim, o indivíduo que descansa apenas para repor as energias despendidas no trabalho e não toma consciência dessa situação de exploração vivencia um processo de alienação. Este não é, contudo, um problema individual, mas social.

BELEZA PURA!: Como se processa essa alienação do trabalho?

Christianne Luce: A alienação do trabalho se manifesta em três âmbitos inter-relacionados: (1) à atividade de trabalho, uma vez que o trabalhador não controla o processo de produção dos produtos, participando apenas como executor de procedimentos concebidos por outros; (2) aos produtos do trabalho, pois o trabalhador não detém a propriedade nem o controle sobre os frutos de seu trabalho, não determina o quê e nem o porquê do que é produzido; e também (3) à nossa espécie, porque, à medida que se sujeita a esse processo de desapropriação de si, o trabalhador não se desenvolve plenamente como ser humano, como desvendou o pensamento marxista.

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1 Comentário»

  Hilberto Neto wrote @

A discussão sobre o lazer trás em seu bojo a necessidade de refletir e mudar a forma como se estabelece a produção da vida material, ou seja a forma como é estruturado o próprio sistema capitalista em todas as suas nuances. Talvez, a questão da diminuição da jornada de trabalho seja uma das mais importantes teses a ser defendida pela classe trabalhadora, desde que balizada por mudanças estruturais mais profundas, inclusive que permita essa “desacelerar” e a “necessidade de se sentir eternamente produtivo”. Uma nova organiação do tempo deverá permitir um aprofundamento da reflexão sobre como o devemos conduzir nossa existência no planeta, inclusive do ponto de vista ambiental. Ainda é questão da hora, desvendar e atualizar as facetas de como o sistema capitalista imrrompe suas necessidades a custa do suor e subjetividade de quem o susteta, a classe trabalhadora.


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