Cantinho da Flor

Para Quem Quer Qualidade de Vida

Jeito masculino

Naquele olhar

…Mas nos seus olhos se refletem também minhas dúvidas e incertezas… e inseguranças. E não sei mais o que fazer…”

Por Leonardo Dualit

Foto: Marcela Capeleiro

Em seus olhos vejo meu reflexo… E me desconexo ao perceber que não sou como penso ser. Em seus olhos vejo minha verdadeira face. E nem sempre ela é bela como a sua… Por breves instantes me deixo absorver pelo seu olhar e me perco num mergulho estéril, ofuscado pelo luzir de um brilho magnífico que me envolve e me arrasta para os recantos imersos de sua alma, para que, mesmo sem palavras, eu consiga entender o sentimento que agora surge entre nós.

Em seus olhos estou privado dos sentidos, absorto em minha distração, distraído em meu pensamento… Refletido em mim mesmo, aprisionado na sua respiração ofegante, não sinto o ecoar de seu coração tentando dizer alguma coisa, para mim, ainda dissonante. Estou imerso na ausência de cores dos seus olhos, enquanto ela me busca e me diz com carinho que vale a pena se arriscar.

E de súbito, desperto e me vejo no meio de um lago negro e sem horizontes. Desesperadamente nado à procura da margem… Mas ela não existe. Meus gritos se dissipam na falta de ar. E veementemente desejo não estar ali; sozinho, perdido, no frio, em silencio, na ausência de mim mesmo… Um pensamento então se apossa de mim e me faz tremer, o medo da morte… Não apenas por ser o fim, mas por morrer no esquecimento… Fecho meus olhos me entrego; e me deixo flutuar. Não há maré que me leve dali, mas sinto um toque singelo acariciando meu rosto… São seus olhos que me seguem todas as noites sem nem mesmo eu perceber… E eles me acolhem e me fazem lembrar de sonhos que um dia foram meus. Sonhos que agora assumem um rosto… tão novo quanto os velhos sentimentos que recomeçam a aflorar.

No fundo de suas retinas passo a enxergar não apenas meu isolamento. Começam a surgir jardins gramados, flores e cores de todos os tipos, nossas filhas brincando no quintal, novos e velhos amigos reunidos para comemorar… Eu chamo seu nome… E ele já me parece íntimo. E ela se aproxima e me toca… Sinto novamente a ternura daquele toque… E lembro do seu olhar. Mais uma vez o ímpeto de despertar quase dispersa aquelas imagens.

Me contenho em sonho. E por mera curiosidade me deixo percorrer por entre pessoas alegres, no pátio de uma casa que parece ser minha… Crianças correndo, música alta, casais dançando… Entro pela sala onde nunca estive, mas que estranhamente me parece familiar. Vejo os poucos móveis, as cores fortes nas paredes… As fotografias… Elas trazem recordações de tempos que ainda não chegaram… Entro no nosso quarto e me deixo cair por sobre os lençóis. A maciez do cetim se dissolve e me vejo de novo imerso no negro de seus olhos… E aqueles anos que ainda não chegaram desaparecem ante a minha hesitação… Enquanto fujo deles sob débeis desculpas de que não sei mais amar.

Mas em teu olhar vejo meu reflexo… E lá estão minhas mentiras. Minha hesitação é medo; pois meu desejo é poder mais uma vez esquecer meus temores e me deixar imergir nas cálidas águas que me envolvem. Mas nos seus olhos se refletem também minhas dúvidas e incertezas… e inseguranças. E não sei mais o que fazer. Então me calo e me deixo ser o que for… E aquele brilho magnífico se condensa e rompe os limites do seu olhar e cai em lágrima, molhando os meus lábios, que agora adormecem entre os seus num breve beijo.

Leonardo Dualit

Jornalista que se deixou seduzir pelo olhar de uma mulher

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