Cantinho da Flor

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Coisa boa

Ócio

Você tem muito o que não fazer. Uma visão nem um pouco preguiçosa sobre a importância do descanso

Por Tullio Andrade

Preguiçoso, eu?! Só porque passo horas deitado na minha rede na varanda de casa, sob uma sombrinha aconchegante enquanto uma leve brisa de meio de tarde bate no meu rosto… O que há de mal nisso?!

Para o coleguinha aí da foto parece que não há problema algum… E não é só ele que pensa assim, muitos estudiosos defendem que tirar momentos do seu dia para não fazer nada é fundamental para a saúde física, mental e emocional. A Coordenadora do Mestrado Acadêmico em Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais, Christianne Luce Gomes, é uma desses. Para ela, “Descansar é importante porque indica respeito pelos nossos limites e observância das nossas necessidades de repouso e relaxamento, itens fundamentais para a busca de uma vida com mais sentido e qualidade.”.

E só para deixar claro, isso não tem nada a ver com preguiça. Segundo a tradição judaico-cristã a preguiça, a mãe de todos os vícios, é um dos Pecados Capitais atribuído àqueles que não querem trabalhar; ou aos que trabalham com lentidão, desleixo e letargia. Já o ócio é algo bem diferente. Ele é marcado pelo “não fazer”. Nos tempos antigos, os gregos como Aristóteles definiam o ócio como uma manifestação cultural que tinha como principal objetivo a contemplação, reflexão e sabedoria; um verdadeiro exercício baseado na compreensão de sentidos e “no saber com sabor”, como ressaltou Christianne Luce. No entanto, continua ela, “naquele contexto, infelizmente tratava-se de um privilégio reservado aos filósofos que constituíam a casta da sociedade grega. Afinal, para usufruir o ócio era essencial estar livre das necessidades de trabalhar.”. Talvez por isso que hoje sempre associamos a idéia do ócio à da preguiça.

E é por causa dessa relação infeliz que se sedimentou no inconsciente coletivo que hoje vivemos uma eterna cobrança pelo “fazer”. Até mesmo em nossos momentos de lazer sofremos com um sentimento de culpa que nós levar a fazer algo; seja ler, passear, praticar esporte, lavar o carro… qualquer coisa. É obvio que essas são atividades também saudáveis, mas a questão aqui é mostrar que o descanso não precisa ser “preenchido”. Ele deve ser apenas, descanso.

Christianne Luce lembra ainda que “com a modernidade reforça-se a lógica da produtividade e, com ela, incorporamos a idéia de não perder tempo com coisas ‘inúteis’. Aprendemos a repudiar o ócio porque ‘tempo é dinheiro’ e, assim, seria um desperdício gastá-lo para contemplar, refletir ou compreender a essência das coisas.”. No entanto, esta é a grande questão: o ócio não é perda de tempo! E isso não tem nada a ver com o famoso “ócio criativo” do sociólogo italiano, Domenico de Masi. (veja Box abaixo).

A concepção de “perder tempo”, além de equivocada, só faz alimentar um sentimento de culpa que cresce a cada geração. Quando descansamos não estamos perdendo tempo, estamos investindo tempo naquilo que temos de mais precioso: nós mesmos. E não estou falando da concepção deturpada pelo modo de vida capitalista de que o descanso é necessário porque o trabalhador, depois de descansar, produz mais e melhor. O ócio não deve ser um instrumento a serviço do trabalho, uma espécie de estratégia para proporcionar uma recarga de energias. Não somos pilhas recarregáveis que precisam de pausas para se restabelecer.

Precisamos de pausas para servirmos a nós mesmo. E de preferência sem fazer nada. Só exercitando nossa contemplação despretensiosa diante das belezas desse mundo; pois são em momentos assim que conseguimos nos conectar com aquilo que há de mais verdadeiro em nosso íntimo. É quando realmente “paramos para pensar” em nós mesmos. Então, no final do dia, marque um encontro com você mesmo e se deixe ficar por alguns instantes imerso na mansidão contemplativa do seu merecido descanso.

E agora dá licença que eu tenho muito o que não fazer.

Ócio criativo pra quê?!

Durante a nona edição do Seminário Lazer em Debate, realizada entre 24 a 26 de abril deste ano em São Paulo, o professor Livre docente em Estudos do Lazer pela UNICAMP, Nelson Carvalho Marcellino apresentou críticas a uma das idéias mais comuns em relação à concepção de descaso: o ócio criativo. Para ele, há um risco iminente na visão do ócio como necessariamente criativo; pois ela pode acabar gerando uma espécie de negociação do ócio por parte de alguns setores do empresariado. E isso já tem gerado novos conceitos como “ócio produtivo” ou “ócio criativo para a produtividade”. Sob esse raciocínio, Marcellino questiona: “o ócio é criativo para quem? Para a produção voltada para o lucro de quem o ‘concede’?”.

Inicialmente a definição de ócio criativo foi formulada pelo sociólogo italiano Domenico de Masi, baseada nas obras de Paul Lafargue, “O direito à preguiça”, publicada no final do século 19; e de Bertrand Russel, “Elogio do lazer”, do final século 19 e começo do 20. Mas hoje ela é questionada, uma vez que “a idéia de ‘ócio criativo’ por ele defendida está muito mais em função do trabalho e da lógica da produtividade do que para o ser humano e para a construção de uma sociedade mais digna, justa e inclusiva.”, como afirma Christianne Luce, que também participou no mesmo seminário da Mesa Redonda “Lazer e Descanso” com o Prof. Marcellino.

E ela vai mais além, ressalta que um dos teóricos que subsidiaram De Masi, Bertrand Russel, pregava exatamente o inverso. Segundo ela, “Russel afirmava que a utilidade do ócio reside justamente na sua ‘inutilidade’ e no seu caráter ‘improdutivo’. Por isso deveria ser visto como um fim em si mesmo, e não como um meio para alcançar outras finalidades: ser mais produtivo, mais criativo, mais isso, mais aquilo…”.

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4 Comentários»

  Rodrigo Medeiros wrote @

Se a preguiça é a mãe de todos os vícios, devemos respeitá-la. Mãe é mãe…

  Rodrigo Medeiros wrote @

Parabéns pelo txto, amigo. Vou ver todo o site mais tarde, tô com preguiça agora…

  Wilton wrote @

Tive que deixar de fazer nada para ler e entender a importância de fazer nada, que belo artigo, parabéns, e bim trabalho e por que não bom fazer nada.

  Sonia Cristina wrote @

Parabéns pela reportagem e a forma que foi abordada. Bastante lúdica, ahahah! Desejo sucesso a todos e que continuem com o trabalho para que possamos desfrutar dessas maravilhas.


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