Cantinho da Flor

Para Quem Quer Qualidade de Vida

Papo Beleza Pura!

“É preciso entender a fotografia como uma possibilidade de expressar idéias e sentimentos, ao mesmo tempo que vamos perdendo aquele olhar ingênuo, devemos manter o coração limpo, pois quando fotografamos estamos estabelecendo uma mediação entre o mundo exterior e o nosso mundo interior, e desta interação podem surgir imagens singulares de beleza”

Foto: Gilbana Benevides

Graduado em Lazer e Qualidade de Vida pelo Centro Federal de Educação Tecnológica – RN, Henrique José Cocentino Fernandes, atua como fotógrafo há mais de 18 anos. Trabalhou diversos jornais e agências de publicidade. Atualmente ele ministra cursos pelo SENAC, enquanto cursa Mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e leciona a disciplina de fotografia em duas universidades (UNP e FATERN). Além disso, o cearense que adotou Natal como moradia há mais de 20 anos é o fundador da Ong ZooN, onde desenvolve um trabalho junto a comunidades carentes para sistematizar o processo pedagógico chamado “Educação Lúdica do Olhar”. E é sobre isso que conversamos agora….

BELEZA PURA!: O seu trabalho com a fotografia tem um zoom nas pessoas, nos grupos, nos costumes e lugares com um olhar cidadão e antropológico. Fale-nos como nasceu esse seu “zoom” e qual o diferencial desse seu estilo fotográfico.

Henrique Cocentino: Quando adolescente, comecei a participar de grupos de jovens ligados à igreja católica, depois fui ser militante do movimento estudantil e organizações de esquerda, isso no final da ditadura e na chamada nova república (governo Sarney), deste período adquiri conhecimentos sociológicos, econômicos e políticos fundamentais na minha formação como sujeito histórico e agente social. Mas tive sempre um pé na cultura e na arte, especificamente na fotografia. Portanto desenvolvi uma compreensão da dimensão humana e das relações entre as pessoas. Sempre tive uma consciência de não querer impor meu ponto de vista e ser capaz de analisar a fala do outro, inclusive era estranho para a época mas eu transitava entre as várias facções políticas e muitos achavam absurdo falar com o “adversário” de forma amigável… Mais tarde comecei a trabalhar em projetos sociais e culturais e tive uma vasta formação nesta área, comecei a observar então que somos seres situados em nosso contexto social, cultural e familiar, o mundo ao nosso redor nos influencia de forma negativa ou positiva e destas influências e escolhas que fazemos, construímos o que somos. Portanto, tenho a consciência clara que só conhecemos realmente uma pessoa quando entendemos sua história de vida, sua trajetória etc. Trabalho como fotógrafo: Hoje sou mais educador que fotógrafo, não está sobrando muito tempo para isso agora, mas vejo como uma fase. Mas meu trabalho como fotógrafo sempre transitou neste universo das pessoas e da cultura mesmo, trabalhei um tempo com fotojornalismo nos anos 90 e tive uma influência muito grande desta escola. De correr atrás da melhor foto, construir um texto visual, o momento decisivo, enfim, ainda acho o fotojornalismo uma grande escola de formação de fotógrafos. Dei uma incursão na publicidade, mais na parte de criação que propriamente de fotografia, na época tinha um pouco de conflito com as coisas muito estáticas e certinhas da fotografia publicitária, sem falar no mercado local que paga mal. Mas meu forte mesmo sempre foi o trabalho autoral, inclusive na experimentação de novas linguagens, tive uma influência muito positiva do poema processo, da poesia visual e das artes contemporâneas, acho que fui um dos primeiros fotógrafos a expor fotografias manipuladas em computador em 1994. Em 1995 lancei um livro chamado COLAGENS que explorava estas linguagens e experimentações visuais. Trabalho Hoje: Atualmente tenho me dedicado a fotografar a natureza, estou realizando há vários anos a documentação da fauna e flora da região de pium (Parnamirim e Nísia Floresta), além de documentar as mulheres coletoras de mangaba, as mangabeiras, inclusive estou no mestrado em antropologia social na UFRN e estou construído uma etnografia deste grupo. Estou também realizando trabalhos na área do audiovisual, mais especificamente de documentários. Tenho uma compreensão espiritualista da vida, portanto estou cada vez mais trabalhando esta dimensão e a aproximação com a natureza favorece esta busca interior.

BELEZA PURA!: A ong ZooN, que você coordena, já tem mais de dez anos e uma história importante no fazer artístico, em formar fotógrafos cidadãos e construir novas perspectivas para a fotografia. Quais as principais ações que ZooN fez e quais ainda pretende fazer?

Henrique Cocentino: A ZooN (www.zoon.org.br) começou na verdade há 14 anos, eu e o fotógrafo Marcelo Andrade, em 1994, queríamos montar uma agencia de publicidade, mas começamos a realizar eventos e atividades culturais e deixar o lado comercial um pouco de lado, mas quando foi em 1997, resolvemos legalizar a ZooN como uma ong, nesta época a Keila Sena (produtora cultural) já está inserida no grupo, juntamente com outros fotógrafos como Ana Potiguar, Rosa Maciel, Guaraci Gabriel, Wlademir Alexandre e outros. Então, no dia 19 de agosto (dia Mundial da Fotografia) fundamos a entidade cultural Galeria ZooN de Fotografia, que desde sua fundação pretende se constituir numa galeria virtual na internet e um espaço cultural na cidade, realizar cursos e exposições, intercâmbios etc. Mas ao longo destes anos, tivemos desencantos, brigas, mas também muitas realizações, inclusive chegamos a realizar eventos de repercussão nacional como a maratona fotográfica em 1997 e mais recentemente o ponto de cultura. Recebemos um prêmio nacional Cultura Viva em 2006 pelas ações desenvolvidas de educação visual. Como todo grupo tivemos maus e bons momentos, chegamos a ficar uns dois anos sem atividades, muitos do grupo inicial foram morar fora ou se afastaram. O Marcelo e a Rosa moram na Europa, basicamente estamos eu e Keila segurando o bastão.

BELEZA PURA!: O que você quer dizer em “educar o olhar” quando se refere em um dos objetivos da ZooN e de seu trabalho?

Henrique Cocentino: Para Ler e escrever imagens é necessário uma alfabetização, estamos falando de um texto visual, mas ele é muito semelhante de um texto escrito, portanto busco sempre usar as premissas de Paulo Freire para tratar desta educação visual, desta alfabetização do olhar… No meu caso, tenho buscado fugir um pouco daquela tecnicidade que muitas pessoas exageram quando vão ensinar fotografia. Com Paulo Freire aprendi que o mais importante e possibilitar ao indivíduo a capacidade de raciocinar, de possibilitar a auto estima e a motivação para que ela se sinta capaz de produzir boas imagens e com isso vá adquirindo a técnica, não podemos achar que a máquina e a técnica é que fazem o fotógrafo, é o contrário, o olhar sensível e instigado, vai buscar as soluções técnicas para resolver a síntese do texto visual que pretende construir. Então tenho trabalhado nestes últimos oito anos, desenvolvendo o que chamo de Educação Lúdica do Olhar, que consiste em dinâmicas, vivências e práticas pedagógicas que trabalham um processo de sensibilização dos sujeitos e com isso a sua alfabetização visual. Mas esta alfabetização envolve outras dimensões que vão além de fotografar, aí entra o trabalho dos temas geradores como a história de vida, as relações familiares e sociais, o conhecimento da realidade e da cultura do seu lugar etc.

BELEZA PURA!: Com a sua experiência e sensibilidade você acredita na arte, na fotografia especificamente, como um meio para melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Henrique Cocentino: A dimensão artística é inerente a todos os seres humanos, o que acontece é que muitas pessoas bloqueiam esta possibilidade, temos que desmistificar a figura do artista como um ser iluminado e de outro mundo, todos nós somos artistas, pois cada um de nós usa a criatividade e a sensibilidade em muitos momentos da vida, mas mesmo assim ainda não percebem esta dimensão. Então a fotografia pode ser utilizada como uma linguagem de expressão do sensível do Homo Ludens, assim como a poesia, a pintura, a dança etc. É interessante perceber uma distinção de arte, o que determina uma obra de arte é a intenção do artista e a interação de sua obra com o público, portanto nem toda palavra escrita é uma poesia e nem toda fotografia é arte, precisamos desenvolver uma percepção mais aguçada capaz de codificar idéias e sentimentos em arte, o artista é apenas uma pessoa que se dedica a isto de forma mais determinada, buscando uma formação técnica que lhe garanta as condições objetivas de traduzir isto.

BELEZA PURA!: Deixe algumas dicas práticas para o nosso leitor de como fotografar com este olhar cidadão, ou a descobrir outros olhares e garantir boas fotos em momentos especiais e inesperados.

Henrique Cocentino: Existem muitas dicas de sites interessantes que podem auxiliar nesta formação, você pode entrar no site da ZooN e encontrar alguns destes links, apostilas, textos e filmes que podem clarear um pouco. Outra opção é fazer um curso de fotografia conosco, temos turmas periódicas de fotografia básica e avançada acontecendo no SENAC do Alecrim em parceria com a ZooN (www.rn.senac.br). Mas o que vejo como mais importante disto tudo é entender a fotografia como uma possibilidade de expressar idéias e sentimentos, ao mesmo tempo que vamos perdendo aquele olhar ingênuo, devemos manter o coração limpo, pois quando fotografamos estamos estabelecendo uma mediação entre o mundo exterior e o nosso mundo interior, e desta interação podem surgir imagens singulares de beleza.

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1 Comentário»

  João Maria wrote @

GRANDE HENRIQUE, E AGALETERIA ZOOM, ESSA DE ROSINHAS SEI NÃO.

AGUARDO NOTÍCIAS


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